A Escola Criativa Idade localiza-se em Poços de Caldas no sul de Minas Gerais. Destaca-se na cidade por seu projeto único de educação fundamentado no pensamento construtivista. Desafia e instiga a criança a construir seu conhecimento. A escola não só ensina os conteúdos básicos de educação infantil e ensino fundamental como também insere os alunos em uma ação social que já lhe conferiu, pela quarta vez, o título de ESCOLA SOLIDÁRIA pelo Instituto Faça Parte/ MEC/ UNICEF.
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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Artigo | Mídia, infância e escola

Quais as experiências e vivências esperamos oferecer aos nossos pequenos? 


Professora Laura Conti*


É com o aparecimento de uma nova ordem econômica, social e cultural, mais precisamente com a ascensão do modelo capitalista e liberal, que podemos, de maneira resumida, caracterizar os sujeitos do ‘mundo pós-moderno’ ou, também denominado por alguns estudiosos de ‘sociedade dos líquidos’, como consumidores ‘desenfreados’ e individualistas, pois, na atualidade é nítido que os indivíduos modernos não enxergam mais o coletivo, nem a sociedade como um todo. O que antigamente era transmitido por “ouvido”, de geração em geração, perdeu o sentido em uma nova sociedade que transmite a experiência de forma a subjetivar os sujeitos através da tela da TV e de outras mídias, das quais somos diariamente submetidos.

É neste contexto, que preocupa-nos o modo com que os pequenos estão sendo inseridos nesta ‘hiper-realidade’, da qual a mídia, as corporações e as pedagogias comerciais representam importantes papéis para infância pós-moderna, principalmente o universo da TV que recria o real, colocando as crianças em novo patamar, substituindo crianças reais como modelos de infância.


Mídia, infância e escola | o Turbilhão de Marketing


A cultura corporativa, direcionada para as crianças, se resume em um cenário de grande atração, composto de um vasto arsenal de propagandas, chamado por Susan Linn (2006) de “Turbilhão do Marketing”, que busca proporcionar além da exposição e vulnerabilidade dos pequenos diante do espetáculo das imagens, inspirar valores e comportamentos, que são embutidos nas mensagens mais ocultas do marketing infantil. É também neste contexto, que não é só através das mídias que o marketing voltado para as crianças está presente, mas, também; “em vias habituais de difusão que tradicionalmente se chamava cultura popular – o boca-a-boca, por exemplo – foram agregadas pelas corporações”. (LINN, 2006, p. 27). A esta afirmação, cabe pensarmos no âmbito escolar, do qual esta “explosão” do marketing está cada vez mais presente nas relações entre pares, nas falas, brincadeiras e ações das crianças.

São estas reflexões, que, de certa maneira, fazem nós educadores ficarmos angustiados e muitas vezes sentirmos impotentes com relação a esta exposição dos pequenos no universo midiático, que muitas vezes são submetidos horas e horas na frente da TV, sem nenhuma intervenção dos responsáveis, pois, são as experiências que as mídias oferecem às crianças, que acabam por criarem nelas valores, expectativas e sentidos. Ao observar uma brincadeira entre crianças, não é difícil perceber a intensidade e maneira com elas desejam ser e agir como os personagens de desenho, de filmes, novelas, transferindo tudo isto para os roteiros de brincadeira, estes que acabam por substituir o imaginário por algo que foi experienciado pela tela da TV.

Ora, se consideramos a brincadeira como um nutriente essencial em todas as vias do crescimento das crianças (social, mental, emocional), sendo que elas também estão intimamente ligadas a uma infância sadia e digna; e que a habilidade de brincar capacita as crianças para o pensamento crítico, criativo e a agir segundo suas vontades e desejos, de tornar a vida significativa, surge a partir daí, uma grande preocupação relacionada às mídias e as brincadeiras infantis, pois, “devido à atual confluência da sofisticada tecnologia da mídia eletrônica e a glorificação do consumismo, está ficando cada vez mais difícil propiciar um ambiente que encoraje a criatividade e o pensamento original nas crianças.” (LINN, 2006, p. 90).


Mídia, infância e escola | o papel dos educadores


São estas análises, questionamentos e angústias voltadas para o estudo da cultura infantil, que permeiam as nossas discussões diárias na escola Criativa Idade, e, é através das observações constantes, que nós nos preocupamos em oferecer cada vez mais um ambiente escolar que de fato encoraje os pequenos a criarem, a refletirem criticamente sobre a realidade da qual estão inseridos e que são diariamente ‘bombardeados’ através das ‘telas’.


Desta maneira, é o nosso papel desde as séries iniciais da Educação Infantil possibilitar a recepção crítica da mídia, ampliar repertórios imaginários e permitir que os pequenos possam refletir, pensar sobre, criar, ‘voar e transcender’, vivendo assim a experiência da verdadeira infância, de resgatar o espírito da criança desordeira, que é  “aquela que, com espírito de caçador, busca nas coisas sua alma e história, fazendo da coleção um ato que, misturado com imaginação, encanta os objetos, arrancando-lhes a aparência grotesca para transformá-los em peças de grande valor”. (Benjamim apud Salgado, 2010, p. 10).


Fotos: Criativa Idade: Um espaço de múltiplas aprendizagens!


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Referências Bibliográficas


MOCELLIM, Alan. Simmel e Bauman: Modernidade e individualização. Revista Eletrônica dos Pós- Graduandos em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC. Vol.4 n.1, p.101-118, agosto-dezembro de 2007. Disponível Em: http://www.emtese.ufsc.br/vol4_art6.pdf

LINN, Susan. Crianças do Consumo: a infância roubada. São Paulo: Instituto Alana, 2006.

STEINBERG, Shirley R.; KINCHELOE, Joe L. Cultura infantil: a construção corporativada infância. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

FANTIN, Monica; GIRARDELLO, Gilka. Liga, Roda, Clica: Estudos em mídia, cultura e infância. Campinas, SP: Papirus, 2008.

SALGADO, Raquel Gonçalves. “Pares ou ímpares?”: consumo e relações de amizade entre as crianças na formação de grupos para brincar. 33ª reunião da Associação Nacional de Pós Graduação E Pesquisa Em Educação (ANPED), 17-20 de outubro, 2010, Caxambu-MG. Disponível em: http://www.anped.org.br/33encontro/internas/ver/trabalho-gt07



* Laura Conti é formada em pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), pós graduanda em Psicopedagogia na PUC, e professora do quinto período da Educação Infantil na escola Criativa Idade. Participou do Projeto de Extensão Universitária e no PAI ( Programa de ações integradas) do Sistema Sesi / Fiemg, que se somam a cursos de formação continuada e de atualização pela Escola da Vila-São Paulo, nas áreas de Apropriação da Escrita Alfabética e Jogos Matemáticos, e pela USP/São Paulo da Labrimp (laboratório de brinquedos e materiais pedagógicos), na área de Formação do Educador Lúdico.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Artigo | Calçada Criativa: Estudando Matemática através da álgebra dos ladrilhos

Prof. Solange Sant'Ana Zanetti*, sobre o estudo de Matemática dentro do projeto Calçada Criativa.



Calçada Criativa | Pelas calçadas da cidade: que espaço é esse?

Nosso fazer matemático esteve pelas calçadas da cidade. A proposta de trabalho foi lançada para o ciclo 4: Qual a relação entre álgebra, geometria e ladrilhos? É possível a generalização? 

Saímos observando as várias formas e padrões geométricos das calçadas no centro da cidade. Os desenhos não seguem um padrão. Nunca havíamos observado “o chão” em que pisamos todos os dias. Descobrimos a Matemática nas calçadas!

A turma foi colocada diante de situações em que puderam refletir sobre o conhecimento, os métodos e procedimentos usados para solucionar problemas e sobre o próprio pensamento em ação. Os conceitos geométricos e de área foram retomados. Explorou-se as regularidades, relações de dependência, expressão de relações por meio da linguagem algébrica, ou seja, a construção dos conceitos de função e generalização.

As atividades propostas através dos ladrilhos (geometria da configuração) tiveram um forte componente geométrico. As leis gerais e relações de dependência propostas podem ser obtidas tanto por meio de métodos aritméticos como geométricos.


Calçada Criativa | Visitando as Thermas Antônio Carlos

Aproveitamos para visitar a Thermas Antônio Carlos onde a beleza faz bem aos olhos. Quanta Matemática! O chão é todo trabalhado com pastilhas que seguem uma ordem, uma “lei geral”. O teto de vitral é uma obra de arte. Que oportunidade gostosa de conhecer (em grupo) o prédio depois da reforma.

Também refletimos sobre o conceito de espaço público e espaço privado: Por que tantas mesas nas calçadas em frente aos bares e lanchonetes? Que espaço é este?

Este foi o nosso fazer matemático da semana. Continuaremos nossos estudos fazendo o projeto e a maquete da calçada depois da reforma, calculando o custo e a quantidade de ladrilhos.



Piso no hall das Thermas Antônio Carlos | Acervo da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura de Poços de Caldas

Detalhe dos ladrilhos nas Thermas Antônio Carlos | Acervo da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura de Poços de Caldas






*Solange Sant'Ana Zanetti é pedagoga com especialização em Matemática, e leciona a disciplina no Ciclo 4 (8º e 9º anos) na escola Criativa Idade. Atua também como diretora da UEMG - Universidade Estadual de Minas Gerais, em Poços de Caldas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Artigo: Alimentação na escola Criativa Idade

Nutricionista Andreia Gileno*

NOSSA FILOSOFIA: 
O cardápio tem que ser gostoso, alegre, instigante, participativo, integrado no cotidiano saudável e possível. O cardápio tem que participar do processo de EDUCAÇÃO. 

Do ponto de vista culinário, o cardápio da escola deve combinar alimentos que se conhece com novas oportunidades de gosto, pois só assim, experimentando, caminha-se para um paladar mais amplo, sem preconceitos e sem vícios. Um paladar ABERTO para novas possibilidades, um paladar que conhece sabores e aceita provocações, pois sabe que isso pode resultar em novas combinações, em novas formas de se conquistar nutrientes e, finalmente, em novas fontes de prazer.

A criança que experimenta novos alimentos e novas formas de preparo dos alimentos será um adulto com maior domínio de seu paladar e de sua saciedade. Quando se pensa no cardápio de maneira mais abrangente dentro da escola, pensamos que ele deve ter uma preocupação além do sabor, mas também participar do processo de educação da pessoa. Se pensarmos que é papel da escola educar para que a pessoa tenha possibilidade de se relacionar melhor com seu meio e consigo próprio, podemos pensar que educar para uma experiência mais ampla e saudável na alimentação é preparar as pessoas para um relacionamento melhor com  A VIDA. 

Saladas, sopas, ingrediente naturais, sucos, receitas de família, temperos frescos, receitas regionais, tudo isso misturado à uma cozinheira nota 10. Tá aí nossa receita: culinária CRIATIVA saindo do forno, participando na volta de seus alunos. 






*Andreia Gileno é Nutricionista, responsável pela elaboração do cardápio alimentar da escola Criativa Idade e parceira na realização de projetos como o Festival de Culinária.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Artigo: A aprendizagem da matemática sob a abordagem construtivista

Prof. Andréa Marques Benetti*

Não seria preciso discorrer sobre a importância do aprendizado da matemática na educação das crianças de qualquer idade, mas algumas questões sempre vêm à tona quando pensamos em um ensino de matemática que vise o aluno como protagonista na construção do seu conhecimento, como é o caso das escolas com proposta construtivista.

Primeiramente, é necessário falar sobre o que é matemática e por que ensinamos matemática: mais que uma série de estudos sobre números e resolução desenfreada de cálculos, a matemática é a ciência das ideias e esta conceituação além de bela nos define o sentido do estudo e da aprendizagem da matemática.

 Ao contrário do que comumente ouvimos ou podemos imaginar, a matemática não é ensinada para atender somente às exigências concretas que as crianças têm e terão ao longo da vida. Se ensinássemos matemática apenas para utilizar no cotidiano comum, poderíamos parar o ensino por volta do 4º ou 5º ano, quando já se espera que a criança tenha se apropriado das operações básicas, do básico da geometria e do sistema de numeração que utilizamos. 

Muito mais que isso, a matemática como ciência das ideias é também a ciência que nos leva a pensar e a utilizar as relações do que já conhecemos para partir para a descoberta do novo. E do que é feita a vida senão da constante descoberta do novo? Nenhuma outra área é tão rica quanto a matemática para nos auxiliar na construção de um pensamento abstrato, necessário para todas as outras áreas e para a vida das pessoas enquanto sujeitos pertencentes a uma sociedade que desenvolveu uma série de conhecimentos e ciências de que hoje em dia podemos dispor em um nível muito mais sofisticado e amplo do que em qualquer época na história da sociedade. E essa é uma segunda questão importante do aprendizado da matemática.

Não é incomum ouvir das pessoas o questionamento de por que deveriam aprender processos não concretos ou aparentemente não aplicáveis da matemática, como relações geométricas mais aprofundadas ou equações de resolução complexas, por exemplo. Neste ponto é possível perceber com grande facilidade a falsa ideia de que o que estudamos ou aprendemos, ou devemos colocar à disposição dos alunos é apenas o que tem aplicação prática imediata no dia a dia. 

Porque então deveríamos ensinar geometria, relação entre lados dos triângulos ou diagonais de quadriláteros se aparentemente nada disso está visível na utilidade prática de nosso cotidiano? 

A escola não é apenas um local de aprendizado das relações práticas, ao contrário, é uma instituição onde o conhecimento científico precisa circular pelas crianças, que por sua vez, tem o direito de se encantar pelo que já foi produzido por nós enquanto sociedade. Como se encantar pelo conhecimento científico se ele não for deliciosamente exposto para as crianças na escola? Em qual outro local as crianças tem oportunidade de se encontrar com este conhecimento se não na escola, e se apaixonar por ele? 

Sendo parte de um conhecimento riquíssimo, uma produção de conhecimento social importante, desenvolvido ao longo do tempo por estudiosos, seria absolutamente desonesto e injusto que a escola não repassasse aos alunos que a frequentam e é nesta questão que entra a importância de uma abordagem do ensino que não parta da “decoreba” de dados, da resolução sem sentido de dezenas e dezenas de cálculos para memorização. Partir de um problema, oportunizar a análise, pelas crianças, das questões que envolvem os conceitos e regras no ensino da matemática, propiciar que construam relações e se apropriem dos conceitos de forma ativa é o que faz diferença na aprendizagem. Neste sentido é que a abordagem construtivista do aprendizado salta na frente do ensino tradicional. 

Embora o volume de conteúdo imposto à criança no ensino tradicional seja imensamente maior, aprendendo a pensar, a raciocinar, a estabelecer relações, a criança poderá resolver problemas utilizando a inteligência, saberá estudar quando for preciso porque entendeu os processos e facilmente utilizará os recursos amplos de que dispõe para a resolução do que lhe for proposto. Oportunizar conteúdo limita a criança ao próprio conteúdo, oportunizar o pensamento abre as possibilidades para que a criança utilize os recursos para o que precisar. O foco muda de uma criança a serviço do conteúdo para um conteúdo a serviço de uma criança que aprendeu a pensar, e aí está a riqueza da educação. 


Bibliografia:

LERNER, Délia. A aprendizagem e o ensino da matemática, abordagens atuais. Ed Artes Médicas, Porto Alegre, 2005.

MARCIANO, Lílian.  Aprender a Ensinar Geometria Jogando e Resolvendo Problemas. Curso ministrado em julho de 2014. Escola da Vila. São Paulo-SP. 

SADOVSKY, Patrícia. O papel das construções no ensino da geometria. Algumas boas razões para ensinar geometria no Ensino Fundamental. Ed Ática. São Paulo, 2007.






*Andréa Marques Benetti é graduada em pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, e professora do 4º ano da escola Criativa Idade. Atua também na rede municipal de Ensino de Poços de Caldas.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Grupo de Estudos: fotos e fatos do primeiro encontro

Um novo mundo a ser interpretado, sentido e construído por nós e por aqueles que buscam sempre aprender com nossas referências: as crianças. É essa a reflexão inicial que orientou a a primeira reunião do Grupo de Estudos, na última quinta-feira (20). Nele participam educadores da Criativa Idade, sob coordenação de Maria Cristina Mesquita Barbosa, especialista em Filosofia na Educação e mestre em Educação. A proposta tem o objetivo de propôr provocações individuais entre os profissionais, buscando uma capacitação coletiva, dando ao professor da escola a voz de ator e mediador no ambiente pedagógico frente às inovações tecnológicas, às organizações sistêmicas da sociedade e dos anseios do cidadão contemporâneo.

A indicação de leitura para iniciar os estudos é o artigo de Adriano D. Quadrado “Pós Modernidade: que tempos são estes?”, que apresenta ao leitor as notáveis diferenças referenciais entre um mundo ditado por grandes narrativas históricas e outro tão dinâmico, atemporal e desterritorializado, onde o ciberespaço passa a ser nosso ambiente de trabalho, compras, lazer e, muitas vezes, de convívio. Mais do que isso, qual a tangência dessa nova filosofia de vida com o capitalismo e suas regras de valores, sejam financeiros ou sentimentais.

Um amplo espaço para a reflexão e análise, mas sobretudo de concepção de práticas pedagógicas alinhadas com o atual momento da humanidade e com conceitos da educação contemporânea. Práticas essas que serão aplicadas no dia a dia da escola e somadas ainda às diferentes buscas de saberes de cada aluno.

O Grupo de Estudos se reúne novamente no dia 25/04, sob orientação de Maria Cristina, e abordará o tema Ética.

Confira as fotos do primeiro encontro:


Maria Cristina Mesquita Barbosa


Maria Teresa Mesquita de Paulta - diretora da Criativa Idade











terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A supressão da escrita a mão: um ensaio, uma projeção, um manifesto

Por Hevisley Ferreira

Vou começar do princípio para que o entendimento do contexto seja mais “digerível” para os que já se assustaram com o título deste ensaio. Vou contar minha história e de meu irmão como estudantes. Fato: desde sempre nossas letras cursivas foram um perfeito desastre. As torturas vindas dos docentes em prol de estética e entendimento do que escrevíamos tomavam várias formas, desde cartilhas e cadernos de caligrafia até o estado de humilhação que alguns professores nos faziam passar perante o resto da sala. Isso em pleno final do século XXI (é, eu sei, isso ainda acontece).

Tal sofrimento foi se amenizando ao longo dos anos letivos. E por fim, no Ensino Médio os professores pouco se importavam se nossa escrita era “de médico” ou “de moça”... que alívio! Nosso conforto só atingiu sua apoteose na graduação. Se no Ensino Médio os professores já não faziam tanta questão de conseguir ler o que escrevíamos, no Liceu o nível de preocupação chegou a zero.

Eu e meu irmão tomamos rumos diferentes na escrita e na escolha das carreiras. Eu escolhi a Geografia e optei pela letra de forma em prol de um melhor entendimento de todo o meu entorno profissional. Meu irmão escolheu a Psicologia e pouco se importa com o que seus pacientes ou alunos acham ou entendem de sua escrita. Os tempos são outros, o meio técnico científico não atingiu seu ápice, mas já mostra claros sinais de força e abrangência em pontos nodais não só da economia mundial, mas da arte, do entretenimento, do lazer, das relações sociais e da educação. As gerações Y e Z fazem parte de uma onda tecnológica que já é por excelência o veio principal de suas interfaces sociais. Suas ações, pensamentos e situações baseiam-se fundamentalmente nessa chamada Terceira Revolução Industrial. Ninguém está a salvo desse processo, os tradicionalistas mesclam-se ou morrem na praia, as gerações X e Baby-Boomers atualizam-se ou também poderão morrer na praia. 

A educação também mudou, quem vê de longe discorda, mas quem a vive diariamente sente na pele as dicotomias, as contradições e as tensões dessa nova etapa. A educação bancária se não está morta, persiste com alguns profissionais da velha geração que estão quase se aposentando. O quadro e giz se mostram tão obsoletos que já são motivos de piadas em algumas escolas com melhores aparatos. Dizer que o computador fará parte da vida dos discentes já soa piegas. A interação digital entre esses novos alunos advindos das gerações X e Y ultrapassa barreiras que até a década de 1990 não eram imaginadas nem pelos pensadores dos mais altos setores acadêmicos. Algumas escolas já entregam aos seus alunos, junto ao material didático impresso, tablets, netbooks, notebooks, aplicativos para seus celulares com notas e dicas para as provas, ou no mínimo o endereço de seus websites para verificação de notas ou leituras complementares. Claro, tudo isso é passível de críticas ou desconfiança, mas ainda estamos no começo do processo. 

Tal período que é ao mesmo tempo ofuscante e assustador, só tem benefícios a trazer para os alunos que na atualidade têm péssima escrita. Todos nós professores conhecemos muito (ou relativamente) bem nossos alunos. Sabemos quem há a escrita por vezes invejável, a escrita somente legível, e a escrita que mais parece ter vindo de um paciente com Parkinson – e já peço desculpas pelo humor negro. Também sabemos que nem todos são provenientes de distúrbios ou patologias e que, mesmo assim, poucos vão melhorar substancialmente a estética ou a legibilidade do que escrevem. As tecnologias da informação e comunicação (TIC) já estruturantes no processo de ensino e aprendizagem, vêm agora sob uma perspectiva mais sensibilizada, talvez dando voz a esse grupo/demanda tão peculiar. Atualmente as pessoas se comunicam e se expressam através da utilização do computador com internet bem como de tablets, MyScript e telefones com celulares androids dotados de aplicativos que permitem qualquer interatividade em tempo real. A partir desse contexto, vejo a necessidade de repensarmos como vem sendo o ensino e relevância da escrita a mão nos contextos dispostos através da internet, sobretudo, nas redes sociais. Não sejamos inocentes, o lápis vêm perdendo espaço para o teclado. Se o aluno tecla ao invés de escrever, quem somos nós para dizer que isso é errado ou não é expressão? Será que está perto do dia em que substituiremos o verbo “escrever” pelo verbo “teclar”?

Não significa necessariamente a pulverização da linguagem escrita a mão. Significa encontrar outros vieses de expressão por meios que o próprio discente com dificuldades encontra maior desenvoltura. Não estamos falando de cornucópia e dependência tecnológica, estamos encontrando meios de comunicação e expressão para todos – e sem tortura ou vergonha!

Lembra daquele seu caderninho de anotações do ano retrasado? Onde está hoje? E aquele texto digitado para o trabalho da faculdade? É claro! Se não está no seu desktop de casa, está na sua caixa de emails.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Projeto de Alfabetização Ciclo I - Intercâmbio: Lendas de Poços de Caldas

Por Flávia Camargo Busatte

“...mire, veja: o mais importante e bonito do mundo é isto;
que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram
terminadas, mas que elas vão sempre mudando.
Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.”
João Guimarães Rosa.

Conforme o PNE - Plano Nacional de Educação, a determinação legal (Lei nº 10.172/2001, meta 2 do Ensino Fundamental) de implantar progressivamente o Ensino Fundamental de nove anos, pela inclusão das crianças de seis anos de idade, tem duas intenções: “oferecer maiores oportunidades de aprendizagem no período da escolarização obrigatória e assegurar que, ingressando mais cedo no sistema de ensino, as crianças prossigam nos estudos, alcançando maior nível de escolaridade”.

Diante desta determinação e refletindo sobre o avanço da tecnologia e o acesso natural das novas gerações a infindáveis fontes de conhecimento e de letramento, torna-se apropriado dizer que as crianças serão possivelmente alfabetizadas em tempo anterior ao de alguns anos. É inevitável que este processo se adiante.

Porém, é necessário dizer que para crianças que chegam da Educação Infantil ao Ensino Fundamental com seis anos é necessário oferecer propostas pedagógicas que contemplem a criança como um todo. Dessa maneira, os conhecimentos sobre espaço, tempo, comunicação, expressão, a natureza e as pessoas devem estar articulados com os cuidados e a educação para a saúde, a sexualidade, a vida familiar e social, o meio ambiente, a cultura, as linguagens, o trabalho, o lazer, a ciência e a tecnologia. 
A alfabetização implica ‘leitura e escritura’ (…) ‘momentos discursivos’ (…) o próprio ‘processo de aquisição’ também vai se dando numa ‘sucessão de momentos discursivos’, de interlocução, de interação. (Smolka, 1989)
Tudo isso deve acontecer num contexto de modo prazeroso, lúdico, para que não haja uma quebra brusca de ferramentas pedagógicas e de metodologias de ensino. O “Intercâmbio” do 5º período e do 1º ano “Lendas de Poços de Caldas” vem justamente reafirmar este trabalho, proporcionando espaços para o aprender e o brincar. O “Intercâmbio“ tem por objetivo, proporcionar momentos de brincadeira, aprendizagem e interação.

Aconteceu:  roda de conversa dos avós; leitura em grupo; leitura individual; brincadeiras com desafios relacionados às lendas; e pesquisas de campo.

A criança de seis anos que ingressa no 1º ano, já no Ensino fundamental, continua com a mesma necessidade de trabalho psicomotor e movimentação do corpo. Parte importante do desenvolvimento de uma criança passa pelo brincar, é fundamental que a escola proporcione espaços para que esta prática não se perca com a chegada do Ensino Fundamental. 


Referências bibliográficas:

SMOLKA, Ana Luíza B. A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo. 2ª ed., São Paulo: Cortez/Campinas: Editora da Unicamp, 1989.

KISHIMOTO, Tizuco Morchida. Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a Educação. 3º ed. São Paulo: Cortez Editora, 1996, v. unico, p. 13-44.